Pi - palmas para uma história rica e cheia de virtudes

Pode-se dizer, caro leitor, que poucas obras são tão apuradas naquilo que se propõem a fazer que possam ser consideradas grandes clássicos do cinema como As Aventuras de Pi.

Ok, não exatamente esse filme ostenta tal título, mas dispõe de um repertório muito qualificado para se sagrar um deles: têm competência em sua direção, contém uma cinematografia bem acabada, narrativa e enredo cativantes e um fundo recheado de significados tão profundos que ficamos genuinamente extasiados com o mix de emoções que cada acontecimento promove.

Quando contemplamos algo assim, vemos que existe algo diferente, não apenas mais do mesmo. É a nata da sétima arte. E é com isso que Ang Lee procura - e consegue -  fazer uma adaptação do livro A Vida de Pi, de Yann Martel.

Os realizadores almejaram, guardadas as liberdades de mídia, montar um longa que conservasse o máximo da história original, tendo mudanças pontuais e que não comprometessem o desenrolar da narrativa. Contudo, o que se destaca para o PopCat é a passagem fabulesca contada pelo jovem. O que não se configura como spoiler da nossa parte, visto que esta é uma história conhecida e lançada nas telonas em 2012. Todavia, se não conhece todos os acontecimentos e teorias fica aqui a advertência. 


Veja bem, muitas produções trabalham nas entrelinhas com significados ocultos, é uma boa prática, mesmo ora bem executada, ora não. Aqui a sensação que temos é fortemente inclinada a algo positivo. O encaixe desse elemento na história é o mais pertinente e condiz com o que foi estipulado até então.


Mas do que se trata?


Pi Patel é um jovem indiano que vive com sua família (pai, mãe e irmão), em seu zoológico, é vegetariano e prática três religiões: Hinduísmo, Islamismo e Cristianismo. No longa, e principalmente no livro, essa fase da vida do protagonista é abordada como o pontapé inicial do jogo de valores que vai acometê-lo mais a frente.


Resumidamente, são a dicotomia entre razão e firmeza e fé e doçura, seu pai e sua mãe, respectivamente. Portanto, as três crenças que pratica são fruto dessa relação de "mentorado" que tem com seus progenitores.


Tudo é posto à prova a partir do momento em que o navio em que estão se transportando para o Canadá com seus animais afunda e o rapaz perde sua família, ficando à deriva num bote com alguns animais sobreviventes: uma zebra, uma hiena, a saudosa Suco de Laranja, que é uma orangotango e, por fim, um imponente tigre de bengala chamado Richard Parker.


Dado o cenário aterrador, Pi literalmente embarca em uma aventura de muita provação e autoconhecimento. 


Durante a jornada, a hiena mata a zebra que está ferida na perna e também Suco de Laranja, fazendo com que o tigre surja para eliminar o risonho canino, sobrando com vida apenas Pi e o grande felino.


Com isso, o rapaz passa por uma verdadeira odisseia de solidão e perda do senso de realidade, enquanto busca domar a fera para não ser devorado e conseguir chegar inteiro em terra firme. O que ele não espera, é que a pequena conexão dos dois se tornaria mais concreta que nunca, surgindo até mesmo um respeito mútuo entre eles para enfrentar as adversidades.


Ao final da trama, já em segurança, Pi conta duas histórias diferentes: uma descrição épica na qual ele desbravou o Oceano Pacífico com um predador feroz e outra mais real, onde ele divide o espaço com seres humanos.


Percebemos de uma vez que os personagens de ambas as versões dividem as mesmíssimas ações, restando apenas trocar as peças e deduzir que o marinheiro é a zebra, o cozinheiro é a hiena, sua mãe, a orangotango, e o protagonista como ninguém menos que Richard Parker.


Nesse instante, a ficha também cai sobre quem fez o quê: o cozinheiro assassinou o marinheiro que estava ferido e a mãe de Pi, que por sua vez liberta o tigre dentro dele e abate o sujeito, sendo ele uma representação de seu espírito de sobrevivência. 


A escolha do tigre como o lado selvagem do protagonista se mostra acertada pelo fato de os dois terem uma certa ligação desde há alguns anos. Richard Parker era visto por todos e especialmente pelo garoto como a atração mais magnífica do zoológico, e é através dele que seu pai - agente da razão - lhe ensina que o animal não pode ser seu amigo, já que é movido por instintos primitivos.


A partir daí percebemos que os ensinamentos passam da teoria e se tornam ferramentas para afastar-se da morte iminente. Como um verdadeiro predador, se alimenta da carne dos que haviam morrido ali: o marinheiro em primeiro lugar, o cozinheiro e sua própria mãe, usando pedaços de seus corpos também para pesca.


Tomando consciência disso, a obra ganha um tom muito mais macabro do que uma viagem com um tigre de bengala adulto poderia ser. As experiências de assassinato e canibalismo nas circunstâncias vividas por ele são brutais. Um contraste perturbador com tudo de fantástico que existe na primeira versão. Um soco no estômago que realça a ideia de que “A fome pode mudar tudo o que você sabe sobre você mesmo.”, escrito pelo próprio jovem em suas anotações.


Tudo isso é reforçado pelo fato de ele estar chorando enquanto Richard Parker devora a zebra. Seria esse o reflexo de toda a agonia de estar consumindo outro ser humano e deixando de lado seu princípio vegetariano.


Outro momento que percebemos esse ato é a ilha que encontra, sendo esta verde e cheia de plantas e suricatos, na qual o rapaz afirma ter se alimentado de todas as partes dela.


Uma teoria afirma que a ilha também seria a mãe de Pi, o que é indicado por sua cor, que simboliza a esperança e fé, assim como a sua mãe representava.


As plantas se dão pelo fato de ela ter sido vegetariana como ele é e os suricatos são as larvas que surgem em seu corpo apodrecido.


Alinhado a isso, vemos também que ele não abandona sua religiosidade e clama por socorro de Deus em todas as formas que o mesmo acredita, tal como assimilou de sua geradora. Afirmando assim que absorveu as características de ambos para sobreviver. 


Está bem, o filme tem boas metáforas, é bem feito e tem bons personagens, mas por que vale a pena ver? Qual exatamente é a mensagem que passa?


Pois bem… não é sempre que vemos um longa apresentar duas versões de uma mesma história e nos impelir a escolher a melhor.


Isso é diferenciado e bom. Fazer o público participar é algo realmente louvável, pois demonstra que o diretor está preocupado em transmitir algo e se importa com o que estamos vendo.


A mensagem está justamente em saber que existem dois lados e podemos nos aconchegar em um, sem a necessidade de nos prender em uma realidade não tão agradável.


Quando o diretor apresenta uma versão em que o navio afunda, a família de Pi morre, ele sofre e tem animais e uma outra em que ele novamente apresenta uma versão em que o navio afunda, a família de Pi morre, mas também nos é mostrado seu sofrimento e saus experiências terríveis, nos é dada a possibilidade de termos o mesmo resultado com um processo menos doloroso.


Por isso Pi tem três religiões. Para ele, todas elas querem chegar em um mesmo lugar, mas com diferentes interpretações. Esse lugar, neste caso, é Deus. Ou seja, é bem melhor um mundo onde temos um Deus para dar esperança do que um mundo insosso e sem fé. 


Curiosidades:


No momento em que vemos Richard Parker no barco pela primeira vez, é quando ele ataca a hiena. Esta cena é filmada como se o felino saísse de dentro de Pi, alertando que seu espírito animal finalmente se libertou de seu interior;


Quando o jovem olha o reflexo no mar, vê o tigre. Sendo esta outra pista do que estava por trás;


O nome original de Richard Parker é Sedento, uma confusão nos documentos trocaram o nome do caçador com o do tigre;


Outro indício de Pi e o tigre serem um só, é o fato de um padre chamar Pi de sedendo quando o flagra tomando água benta;


O nome Richard Parker não é atoa. No século XIX, em um naufrágio, foi decidido sacrificar um jovem rapaz com esse nome para servir de alimento e garantir sobrevida aos demais. O caso ficou conhecido como “A tragédia do Mignotte”.


Edgar Allan Poe também escreveu uma obra sobre o acontecido, antes mesmo do caso real e curiosamente tendo sido sacrificado para alimentar a tripulação outro jovem chamado Richard Parker;


No momento da chuva de peixes voadores, o formato do filme é trocado, para que o espectador tenha uma experiência de 3D mesmo sem os óculos. Nota-se que os peixes pulam por cima da barra preta;


Richard Parker, ao sair do bote, não olha para trás, reforçando que não era amigo de Pi e apenas estava lá para mantê-lo vivo como seu instinto de sobrevivência;


M. Night Shyamalan foi cotado para dirigir o filme; 


Richard Parker foi feito em CGI sempre que precisou dividir o enquadramento com Suraj Sharma, que interpretou Pi;


Pi ficou 227 dias no mar, dividindo-se este número por 7, temos 3,14, a constante pi;


A maior inspiração para Yann Martel escrever o livro veio de uma obra brasileira: Max e os Felinos, de Moacyr Scliar;


Suraj Sharma teria ido apenas acompanhar o irmão nos testes, mas acabou vencendo os outros 3 mil candidatos e recebendo aulas particulares de Ang Lee sem nunca ter atuado antes.


Nota: 4,5/5


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